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Do Amor.
“Deus te ama.” Quando ouvi essa frase pela primeira vez não fui arrebatada por um sentimento louco que me consumia, nem se quer estranhei. A verdade é que não senti nada. Assim, absolutamente nada. Coisa estranha, àquelas alturas, ouvir que Deus (que Deus?) me amava. Mas eu vou contar como, hoje, eu sinto que isso mudou. Nessa primeira quinzena de maio eu, realmente, comemoro um ano do primeiro passo de encontro ao Amor. Foi porque eu não cresci assim, sabendo disso. Lembro muito bem do meu contato com a Igreja e a religião antes de tudo acontecer. Lembro que minha mãe disse que eu tinha que rezar antes de dormir e eu só fazia isso quando tinha medo que um monstro saísse de baixo da minha cama; que eu fui coroinha quando ia na 3ª e 4ª série só pra me sentir útil à comunidade, sem ter nem ideia do ritual sagrado do qual eu participava; que abraçava meu tercinho da primeira comunhão depois de assistir um filme de terror escondida; que eu achava um saco ter que ir na missa da Quinta-Feira Santa que eu acreditava durar umas trezentas horas, e pior ainda era aguentar o dia seguinte quando eu pensava que nem respirar eu podia porque iriam se ofender. Lembro dos comentários, depois da Crisma, que se confirmaram: “Missa nunca mais!” Estávamos livres dessa obrigação. E assim a oração antes de dormir transformou-se em um “Em nome do Pai, do Filho…” e aí os olhos já tinham se fechado para se abrirem apenas na manhã seguinte. E eu recordo bem dos dias em que eu ficava do lado de fora da Assembleia de Deus, espiando pra ver se ali era mais divertido. Também de quando eu comecei a pesquisar sobre outras religiões e achei que o budismo era “cult”, que o judaísmo até que poderia ser legal e que talvez frequentar a Igreja Batista fosse uma novidade interessante. Mas não, exigia muito esforço ter de mudar. Eu queria ficar ali, quietinha, rezando meio Pai Nosso e achando que Deus estava atrás de um daqueles vidrinhos que trazem a inscrição “Quebre em caso de emergência”. Lembro de quando ganhei a minha Bíblia, no último dia de 2009, sem ter a mínima noção do que fazer com ela. Não sabia como me localizar naquelas milhares de páginas e nem entenderia a piadinha do “está entre o Gênesis e o Apocalipse”, porque para mim eles podiam estar em qualquer lugar ali dentro. Mas, quem sabe, eu deveria começar… lendo, não é? Pois bem, todo dia eu abria em uma página aleatória e lia um fragmento. Meus dedinhos acabavam sempre acomodados no Velho Testamento, onde tudo parecia ainda mais complexo. E quantos cordeirinhos morreram diante dos meus olhos naquelas páginas! E de repente surgia um tal de Elias, um Moisés levando uma galera pra outro lugar e por aí vai. Mal sabia eu que estava cometendo um dos piores erros do cristão: viver na superficialidade da relação com Deus. Mas durou pouco tempo esse ritual. Logo que mudei de apartamento, a Bíblia começou a mofar em um canto da estante e as orações acabaram. Nada de missa, nada de “obrigada, Senhor”, nada. E, de repente, a minha vida virou. Começaram a vir as primeiras sensações estranhas, os primeiros pensamentos mórbidos, as primeiras vontades egoístas. Não sei bem quando, mas em meados de 2010, eu perdi de vista a minha própria vida. E ficar o dia todo na cama era, para mim, a melhor coisa. A escuridão daquele quartinho apertado, jogada num colchão no chão, passando três dias sem comer nada, outros dois comendo tudo que eu enxergasse. Liguei num automático afeito à tristeza. E aí começou aquela coisa esquisita: o estranhamento ao sorriso. Eu não suportava nada que me fizesse bem. Eu queria minha cama, eu queria ficar sozinha, eu queria estar debaixo do edredom no meio do dezembro santamariense. Eu precisava. Comecei a acabar com os pedaços do meu coração lá por maio, junho daquele ano. E só foi. Precipício abaixo eu me joguei. Nos meses seguintes eu experimentei as piores coisas que podem ser experimentadas. Eu abracei o Mal com força. Até que… até que Ele planejou, para mim, o dia certo. Domingo, dia 15 de maio de 2011 foi o dia que Ele escolheu. Esse emblemático dia na minha vida. Não tem como não acreditar que foi propositalmente - e carinhosamente - selecionado. Foi o dia em que, no auge da minha depreciação física e mental, fui à missa das seis horas na Catedral Metropolitana, pela primeira vez, e do último banco da fileira da esquerda eu podia ver um pessoal lá na frente. E eles sorriam, e eles se abraçavam, e eles pareciam ter esperado aquele dia, ter carinho por aquele momento que eu utilizava como uma fuga. Vestida de preto dos pés à cabeça, eu se quer tirei a touca durante aquela hora tão sagrada. Mas no final, pronta para me ajoelhar e pedir ajuda para o tal Deus que até então eu pensava existir em algum lugar muito distante, um moço começou a falar que aquela celebração tinha sido preparada e animada pelos jovens do Grupo de Oração Jovem São Pedro e convidavam a mim, sim, a mim, dizendo que não importava como eu estava me sentindo naquele momento, Deus não me julgava e eu poderia descobrir mais indo quarta-feira, às 19 horas, no salão da Catedral e… Aí meu coração já estava por me sufocar de tão rápido que batia, pois eu estava a caminho daquele cantinho da igreja para averiguar se eles tinham certeza que eu - aquele ser destroçado - poderia mesmo participar. Para minha surpresa eu fui, sim, na quarta-feira. E daquele dia em diante a frase “Deus te ama” começou a se moldar aqui dentro. Quase um ano depois e ela está pulsando com tamanha força que é capaz me levantar da cama, todos os dias, e me mostrar que nada, absolutamente nada, é impossível para um Deus que não está distante, que não está morto, mas que está aqui, do meu ladinho agora mesmo. Eu poderia contar todo o resto, mas eu me alongaria demais. O fato é que, mesmo nesse ano, idas e vindas estiverem por aqui. Dias terríveis, dias intensos, dias de dor, dias de sorrisos… E até mesmo quando eu me perdi de novo, quando eu fechei novamente os olhos, Ele tornou a bater na minha porta e sussurrar levinho no ouvido do meu coração: “Eu te amo”. E, porque eu ouvi, eu estou aqui para falar “Eu também Te amo”. Obrigada, Deus - e, agora sim, Meu Deus -, obrigada por tudo isso. Sei, sim, que eu dei só dois ou três passinhos, mas eles já moveram a minha vida toda. E eu, Sua filhinha, estou aqui para Te louvar e para Te servir. Todos os meus dias.
Lembrete.
Se a tua liberdade depender da minha autoexposição, saiba que acreditarei sempre primazia do respeito. Não pense que o tempo move-se linearmente. Cada história tem sua ciclicidade, e o fechamento de algumas pode estar muito além do horizonte comum. O tempo precisará de si próprio tantas noites quanto você poderá contar pelas estrelas do céu. A lua ainda irá surgir e desaparecer centenas de vezes até que o fim dê origem ao começo. Até lá, lembre-se: ainda quando dividíamos a mesma paisagem, o ângulo nunca era o mesmo; agora, então, há entre eles um abismo de novas emoções. E eu, eternamente, sentirei diferente de você. Quem diria?
Pergunto a mim e a ti. Quem diria? A luz da manhã tem cheiro de cobertor guardado, de vento gelado. E eu aqui, tentando me esquivar do sono, ainda rindo do que aconteceu noite passada. Mas nem por isso deixo de indagar-me: “quem diria?” Quem diria que eu viria a ser assim? Eu, instintiva, inconsequente, impulsiva. Eu que era tão sedenta do mundo, que tinha fome dos outros. Eu, que tinha medo nos olhos, mas não tinha vergonha na cara. Mal consigo lembrar do passado sem torcer o nariz para mim mesma. E agora, em pé domingo de manhã, rindo sozinha. Prudente, sensata, sã. Contente por não ceder. Por manter os pés no chão e os olhos no céu. Por não ter vergonha de dizer “não, eu não quero”. “Não” - quem diria? Eu dizendo que não. Negando a vida que eu idolatrava, rejeitando convites, moldando atitudes. E com isso conseguindo aquilo que eu sempre quis. As palavras que eu sempre quis. Ah, se eu soubesse que estava percorrendo, antes, o caminho contrário. Se eu soubesse que para tê-las eu só precisaria ser assim, desse jeitinho. Guardo aquelas palavras. Como se tivesse transcrito e colado em minha parede. Mantenho-as para que elas me lembrem que eu consegui. Sim, eu consegui. Quem diria? Amanheceu.
Talvez tenha sido no meio daquele sorriso, no meio daquela noite, no meio daquela história. Ali, entre um segundo e outro, com tudo que estava ao meu redor. Do silêncio veio a paz, como um pequeno sopro, um hálito quente enquanto eu me cobria até as orelhas e fazia o pedido. Naquele instante, pequeno e imenso, antes de cair no abismo do sono, eu pude sentir que havia começado o tempo novo. O sol vinha me dar bom dia sem pedir nada em troca, mas eu, ainda assim, devolvia aos céus toda a minha gratidão, dando com força e segurança cada passo. Me transportava leve para mais perto de mim e do que sonhei. O cheiro de café recém passado, de amendoim na casquinha, de orvalho em evaporação, de domingo ensolarado. E eu, feliz, admirei a vida que foi-me dada como um magnífico presente. Não havia ali nada que me fizesse querer voltar, nem ninguém que pudesse me fazer desistir. Eu estava vestida de um brilho novo, enfeitando-me com o meu melhor sorriso. E quantos outros eu recebi! Quase como se pudesse tocar cada um com a ponta dos dedos e sorver da amizade que eu nem lembrava que tinha. Quanta gente eu deixei de lado para me importar com o que não precisava do meu empenho? Mas estavam todos ali, esperando a minha volta. Meus queridos amigos que me puxaram para a frente do espelho e me ajudaram a ver novamente quem eu sou. Eu precisava, e eles sabiam, ver a menina calma, alegre, sensata e que tem o coração mais manso desse mundo. Eles não me queriam neurótica, desprendendo todos os meus esforços para fazer meu o que não me pertence em essência. No caminho eu fui deixando os meus crimes contra mim. Dobrando a esquina, percebi que o melhor de mim estava logo ali, esperando-me. Disse-me baixinho: “nunca mais me entregue assim, eu sou teu”. Em oração eu levantei minhas mãos na direção do céu e agradeci o doce da vida que voltava aos meus lábios. A alegria que há muito, muito tempo eu não sentia. A liberdade de não necessitar de nada, absolutamente nada, além do Amor. Esse, infinitamente gigantesco, que eu recebo de graça todos os dias. Sem dor e sem lágrimas, sem egoísmo e sem apelos, sem mentiras e sem ilusões. Esse que me enche até o topo da alma e que me move confiante. Eu sabia. Deus havia reservado o mais belo dos arco-íris para depois da tempestade. Fotografia: Michelle Fennel
Suicídio ao Contrário - Tópaz Passou. Sim, como já era previsto. E até que foi rápido - e menos molhado. Acontece que às vezes não é do outro que sentimos falta, mas de nós mesmos quando estávamos com ele. E eu senti falta de mim, daquele meu sorriso aberto e daqueles sonhos cegos. Até que eu me encontrei. Me encontrei feliz no meu apartamento, com as minhas amigas, comendo brigadeiro e vendo filme debaixo das cobertas. E como a gente riu! Tanto que repetimos, e foi ainda melhor. Me encontrei feliz fazendo amizade com meus colegas, almoçando com eles, estudando com eles, e me realizando com isso. Me encontrei feliz ao rever velhos amigos, voltando de madrugada para casa com eles e parando no caminho pra comer um xis cheio de gorduras trans. Me encontrei feliz aprendendo matérias que eu não tinha assimilado no ano passado, assim conhecendo minhas potencialidades. Me encontrei feliz saindo com as amigas só pra conversar, ir num bar sem compromisso, ir num café para colocar o papo em dia. Me encontrei feliz comendo churrasco com meus queridos, falando sobre Deus, sobre a vida, sobre nossos projetos. Me encontrei feliz percebendo que eu estou no caminho certo, que agora reconheço meus passos. E me libertei. Daquilo que ainda restava do eu que senti falta. Mas aquela menina de sorriso e amor fácil é hoje parte do que não sou. Mas me sinto melhor assim.
Learning to breathe - Switchfoot “When she was just a girl, she expected the world. But it flew away from her reach, so she ran away in her sleep. And dreamed of paradise. Every time she closed her eyes. Life goes on, it gets so heavy. The wheel breaks the butterfly. Still lying underneath the stormy skies. She said oh… And so lying underneath those stormy skies. She’d say oh… This could be paradise.” Colplay em prosa, ainda bonito, ainda profundo. Eu queria saber onde vai parar toda a felicidade. Não sei, fico pensando se existe uma espécie de limbo para todos os momentos felizes que não permitimos ficarem na memória. É injusto que morram, assim, esquecidos, quando um dia foram a razão do nosso agradecimento no final do dia. Às vezes me pego tentando mentir para mim que não foi assim tão bom, que eu consigo esquecer facinho. Mas, vamos lá, a quem eu tento enganar? Alguns dias, sim aqueles, foram tão cheios de alegria a ponto de eu não caber em mim. Eu era somente sorrisos, com a alma inspirada e o coração cheio. E agora, quando algumas lembranças chegam de mansinho eu tento evitá-las, corrompê-las, desdenhá-las, coitadas. Para que vindo não doam por terem sido o melhor de mim que eu perdi. Mas e quem sabe se eu deixar aqui, registrado, bite no bite? Será que elas se acomodam? Uma espécie de arquivo que pode criar uma cyber poeira até que o tempo finalmente passe. A tentativa há de ser válida. Começo então pela que me visitou hoje: o reveillon. Todo mundo ia e era isso que eu sabia. Comecei a planejar a roupa dois meses antes e, apesar do exagero, não era pelo materialismo, mas pela empolgação. E quando o dia chegou eu estava uma pilha de nervos, fiquei tonta no primeiro gole de champanhe por não ter comido o dia todo. Fomos conversando no caminho, os meninos nos bancos reserva do carro e as meninas na frente, rindo. E, chegando lá, a gente escondeu as havaianas atrás de uma pedra, vez ou outra espiando pra ver ser um gatuno oportunista não iria afaná-las. Quando finalmente conseguimos entrar, estava todo mundo lá, no segundo litro do destilado. Era como se alguma coisa estivesse brilhando em volta daquela gente, como se o sorriso de todo mundo soltasse os fogos de artifício da noite. E depois de trezentos “feliz ano novo” a gente aproveitou e riu dos amigos no palco, riu dos amigos dançando e até tentou dançar. A gente saiu dar “uma volta” e estava muito, muito frio. Mas as estrelas tinham uma cor diferente. E escorados em um carro, tentando fazer uma troca de calor, a gente observou o céu que parecia colorido por aqueles pontinhos que também nos saudavam pelo ano recém chegado. E a gente conversou. Fizemos planos. Na volta eu resgatei minha havaiana e ele fez questão de carregar minha sandália, não podendo carregar a mim. Eu achava que nunca tinha me sentido tão feliz em toda minha vida. E voltando, a música ficava mais alta e quem sabe um sol vinha aparecendo lá de trás. Mas a gente ainda achou um cantinho pra que eu ganhasse colo e os vestidos alheios virassem comentário. Mas tinha café da manhã, não tinha? A fome batendo, os garçons servindo e a gente filando um copinho de café quente. Uma foto no meu celular que eu ainda não me atrevi a apagar. Um brinde de café preto na frente do primeiro sol do ano que achei que iria durar para sempre. E ainda tinha tempo para ver ele nascer junto daqueles mesmos, tão queridos para nós. Eu lembro, na volta, o sono batendo forte e eu olhando para aquele sol e pedindo a Deus que meu ano fosse repleto da mesma felicidade que eu senti naquela noite. Não que tenham ocorridos grandes feitos, mas as estrelas estavam de outra cor. E coloriram a minha vida. Às vezes, quando eu lembro, nem parece que aquilo tudo fez parte da minha história, tão perfeito estava. Sim, havia naquelas horas um quê de perfeição meio torta, meio engraçada. Mas não pelo que era grande, pomposo. Era só pelo simples. Pelas mãos dadas na fila do banheiro feminino, pelos olhares cúmplices, pelos sorrisos espontâneos. Por aquele segundo e meio onde couberam as palavras “eu te amo”. E agora eu já recomeço a chorar. Droga, já estava há uma semana sem derramar essas gotinhas danadas. Acho que uma lembrança só já basta por hoje. É muito mais do que esse coraçãozinho doído aguenta. Não, eu não quero a lembrança dos melhores dias da minha vida em um mar de arrependimento pelo que não vingou. Fiquem, queridas, fiquem. Só não me façam chorar de saudade. Sejam doces, por favor. Sejam doces. Clique aqui.→
Como quem prevê, escrevi. E me relendo soube que era exatamente isso que eu gostaria de dizer nessa madrugada nostálgica que me suga a vida. E me envergonha. Não é assim que se faz, eu sei. Não é dessa forma que eu devo me expor, nem é assim que se mostra que as coisas não estão ruins, muito pelo contrário. Mas hoje é hoje. Amanhã estou bem.
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Um pouco de tudo e muito de nada.- Mantido por Bruna Vidal. 19 anos, gaúcha, estudante. Links para:
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